Esse ano decidi voltar a me dedicar aos estudos históricos, minha profissão e paixão. Entrei no programa de latu-sensu da PUC de São Paulo. Apesar de cansativo balancear a vida pessoal e os estudo, tem sido recompensador.
Em uma das disciplinas, Etnia e Gênero, ministrada pelo prof. Dr. Amailton Magno, discutimos a questão de raça, racismo e gênero.
Uma leitura indicada foi o texto da bell hooks, escritora norte-americana, negra. O texto está na net e se chama Intelectuais Negras, um dos textos mais sensacionais que li recentemente. Procurando sobre a autora, me deparei com seu facebook. Sim, ela tem facebook, achei mais legal ainda.
Em uma de suas postagens, hooks compartilhou um artigo de um professor norte-americano que reflete a questão do racismo, mas sob o ponto de vista dos brancos. Novamente, o artigo é intrigante, incomodo e desnuda o pensamento branco nos Estados Unidos. Tomei a liberdade de traduzí-lo, pois seria uma perda imensa não ler esse artigo.
Qualquer semelhança com a realidade brasileira não é mera semelhança. Se depois de ler esse artigo, você não se sentir incomodado e com vontade de mudanças, há algo profundamente errado. Sugiro, como o autor, uma busca por mair esclarecimento e auto-reflexão.
O texto segue abaixo. Boa leitura e reflexão ^.~ OBS: a tradução de "people of color", foi por pessoas de cor, entendam negros por favor, sem conotação negativa, só mantive as denominações do próprio autor.
Porque é tão difícil falar com brancos sobre RacismoDr. Robin DiAngelo explica o motivo dos brancos implodirem quando falam sobre raça.
Eu sou branco. Eu passei anos estudando o que significa ser branco numa sociedade que proclama a raça como sem sentido, porém é profundamente dividida racialmente. Isso é o que eu aprendi: Qualquer branco vivendo nos Estados Unidos desenvolverá opiniões sobre raça simplesmente nadando na nossa cultura. Mas fontes dominantes – escolas, livros, mídia – não nos dá as múltiplas perspectivas que precisamos. Sim, nó desenvolveremos opiniões carregadas de fortes emoções, mas elas não são opiniões informadas. Nossa socialização nos torna racialmente ignorantes. Quando você adiciona a falta de humildade à essa ignorância (porque não sabemos o que não sabemos), você vê comumente um ataque de nervos quando tenta engajar brancos em conversas significativas sobre raça.
As principais definições no dicionário reduzem o racismo ao preconceito racista individual e as ações intencional que resultam dele. As pessoas que cometem esse atos intencional são consideradas más, e aquele que não o fazem são bons. Se somos contra o racismo e não percebemos que cometemos atos racistas, então não podemos ser racistas; racismo e ser uma boa pessoa são opostos. Mas essa definição faz pouco para explicar como as hierarquias raciais são consistentemente reproduzidas.
Cientistas sociais entendem o racismo como multidimensional e um sistema altamente adaptável – um sistema que assegura uma distribuição desigual de recursos entre grupos raciais. Porque os brancos construíram e dominam todas as instituições mais importante, (com frequência as custas e em cima do trabalho irrecompensado de outros grupos), seus interesses são embutidos na fundação da sociedade Estado unidense. Enquanto indivíduos brancos podem ser contra o racismo, eles ainda se beneficiam da distribuição de recursos controladas pelo seu grupo.
Sim, um individuo de cor pode se sentar nas mesas do poder, mas a grande maioria das decisões tomadas serão de brancos. Sim, brancos podem ter problemas e enfrentar barreiras, mas sistematicamente o racismo não será um deles. Essa distinção – entre preconceito individual e um sistema desigual onde o poder racial é institucionalizado – é fundamental. Não se pode entender como o racismo funciona nos Estado Unidos atual ignorando as relações de poder entre os grupos.
Esse controle sistêmico e institucional permite àqueles de nós que são brancos na América do Norte viver num ambiente social que nos protege e isola do stress baseado na raça.
Nós organizamos a sociedade para reproduzir e reforçar nossos interesses e perspectivas raciais. Além do mais, nós nos colocamos no centro em todos os assuntos considerados normais, universal, benigno, neutro e bom. Portanto, nos movemos através de um mundo completamente racializado com uma identidade não-racial (ex. brancos podem representar toda a humanidade, mas pessoas de cor podem representar somente eles mesmos). Desafiar essa identidade se torna altamente estressante e até intolerável. Os exemplos a seguir demostram esse tipo de desafios que acionam o estresse racial para os brancos:
· Sugerir que o ponto de vista de um branco advém de uma referência racial (desafia a objetividade);
· Pessoas de cor falando diretamente sobre suas próprias perspectivas raciais (desafia os tabus brancos sobre fala abertamente sobre raça);
· Pessoas de cor escolhendo não proteger os sentimentos raciais dos brancos em relação à raça (desafia as expectativas raciais brancas e sua necessidade/direito ao conforto racial);
· Pessoas de cor não dispostas a contar suas histórias ou serem questionadas a falar sobre suas experiências raciais (desafia a expectativa de que os negros nos servem);
· Um cara branco não concordando com a perspectiva racial de alguém (desafia a solidariedade branca);
· Receber o feedback do impacto do comportamento racista de alguém (desafia a inocência racial branca);
· Sugerir que um pertencer a um grupo é significativo (desafia o individualismo);
· Reconhecer que o acesso é desigual entre grupos raciais (desafia a meritocracia);
· Ser apresentado a uma pessoa de cor numa posição de liderança (desafia a autoridade branca);
· Ser apresentado a informações sobre grupos raciais através, por exemplo, de filmes nos quais negros lideram a ação mas não estão em papeis estereotipados, ou a educação multicultural (desafia a centralidade branca).
Não frequentemente encontrando esses desafios, nos retiramos, nos defendemos, choramos, argumentamos, minimizamos, ignoramos, e de outras formas nos afastamos para recuperar nossa posição racial e o equilíbrio. Eu chamo esse afastamento branco de fragilidade.
Esse conceito veio de minha própria experiência liderando discussões sobre raça, racismo, privilégios dos brancos e a supremacia branca primariamente com um público branco. Se tornou claro com o tempo que os brancos têm um baixo limite de suportar qualquer desconforto associado a desafios sobre nossa visão mundial de raça. Nós conseguimos lidar com o primeiro round do desafio ao acabar com a discussão através de superficialidades – normalmente usando algo do tipo “As pessoas precisam...” ou “Raça não tem nenhum real significado para mim”, ou até “Todo mundo é racista”. Tente ir mais fundo que a superfície, e nós desmoranamos.
Socializados em uma noção de superioridade e direito profundamente internalizados que não somos nem conscientes ou que nunca admitimos a nós mesmos, nós nos tornamos muito frágeis em conversas sobre raça. Nós experenciamos um desafio à nossa visão racial como um desafio a nossa identidade de pessoas boas e moais. Isso também desafia nosso senso de estarmos num lugar justo na hierarquia. Desse modo, percebemos qualquer tentativa de nos conectar com um sistema racista como uma ofensa moral muito perturbadora e injusta.
Os padrões a seguir tornam difíceis para os brancos entenderem o racismo como um sistema e leva a dinâmica da fragilidade branca. Eles não se aplicam a todos os brancos, mas eles são bem documentados comumente:
Segregação: A maioria dos brancos vivem, crescem, brincam, aprendem, amam, trabalham e morrem primariamente em segregações sociais e geográficas. Porém nossa sociedade não nos ensina a ver isso como uma perda. Pare um momento e considere a magnitude dessa mensagem: Nós não perdemos nada de valor em não termos relações multi-raciais. De fato, o quão melhor nossas escolas e bairros são, mais provavelmente verão isso como “bom”. A mensagem implícita é que não há valor inerente na presença de pessoas de cor. Esse exemplo de mensagem inexorável da superioridade branca que circula entre nós está moldando nossas identidades e visões de mundo.
O Binário Bom/Mau: A mais efetiva adaptação do racismo com o tempo é que o racismo é consciente e feito por pessoas ruins. Se não estamos conscientes de ter pensamentos negativos sobre pessoas de cor, então não podemos ser racistas. Assim, uma pessoa não é racista e nem não-racista; se alguém é racista, essa pessoa é má; se a pessoa não é racista, essa pessoa é boa. Apesar do racismo ocorrer, é claro, em atos individuais, esses atos fazem parte de um sistema no qual todos participamos. O foco em incidentes individuais impede a análise necessária para desafiar esse sistema maior. O binário bom/mau é não-entendimento fundamental que leva os brancos a ficar na defensiva sobre estarem conectados ao racismo. Nós simplesmente não entendemos como a socialização e o preconceito implícito funcionam.
Individualismo: Brancos são ensinados a se verem como indivíduos, ao invés de parte de um grupo racial. O individualismo nos permite negar que o racismo está estruturado no tecido social. Isso apaga nossa história e esconde o caminho pelo qual a riqueza foi acumulada geração pós geração e nos beneficia, como um grupo, hoje. Isso também permite que nos distanciemos da história e das ações do nosso grupo. Desse modo, nós ficamos irados quando somos “acusados” de racistas, porque como indivíduos, nós somos “diferentes” de outros brancos e esperamos sermos vistos como tal; nós achamos intolerável qualquer sugestão que nosso comportamento ou perspectivas são tipicamente de um grupo como um todo.
Direito ao conforto racial: Na posição de dominantes, os brancos estão quase sempre racialmente confortáveis e, portanto, desenvolveram expectativas não-desafiáveis de permanecer assim. Nós não precisamos ter tolerância ao desconforto racial e, desse modo, quando o desconforto racial aparece os branco respondem tipicamente como se algo estivesse “errado”, e culpam a pessoa ou o evento que acionou esse desconforto (normalmente pessoas de cor). Essa culpabilização resulta numa ordem de ratificações sociais em resposta à fonte de desconforto, incluindo: penalização; retaliação; isolamento e recusa em continuar engajado. Já que o racismo é necessariamente desconfortável pois é opressivo, a insistência branca em manter um conforto racial garante que o racismo não seja enfrentado, exceto de forma superficial.
Arrogância Racial: A maioria dos brancos tem uma noção bem limitada sobre racismo, pois nós não fomos treinados a pensar de forma complexa sobre ele e porque não o fazer nos beneficia como grupo dominante. Porém não temos remorso em debater o conhecimento construído de pessoas que pensaram de forma complexa sobre raça. Brancos geralmente se sentem à vontade em dispensar essas perspectivas informadas ao invés de ter a humildade de reconhecer que não temos familiaridade com elas, refletir sobre elas posteriormente ou procurar mais informações.
Pertencimento Racial: Os brancos gozam de um senso racial amplamente inconsciente, profundamente internalizado, de pertencimento à sociedade Estado unidense. Em qualquer situação ou imagem valorizadas na sociedade dominante, lá estão os brancos. A ininterrupção do pertencimento racial é rara e acaba por desestabilizar e assustar os brancos, que a evitam.
Liberdade psíquica: Porque a raça é construída e reside nas pessoas de cor, os brancos não carregam o fardo social da raça. Nós nos movemos facilmente dentro da sociedade sem a noção de nós mesmo como racializados. Raça é para pessoas cor pensar – é o que ocorre com “eles” – eles podem falar sobre isso se for um problema para eles (apesar de que se eles falam, nós podemos encarar isso como um problema pessoal, uma bandeira de raça ou a ração para o problema deles). Isso permite aos brancos uma energia psicológica muito maior para devotar a outros problemas e evita que nós possamos desenvolver a energia para manter nossa atenção num problema carregado e desconfortável como a raça.
Mensagens constantes que temos mais valor: Vivendo num contexto dominado por brancos, nós recebemos mensagens de que somos melhores e mais importantes que as pessoas de cor. Por exemplo: nossa centralidade nos livros de história, representações e perspectivas históricas; nossa centralidade na mídia e na propaganda; nossos professores, modelos a seguir; heróis e heroínas; o discurso diário de “bons” vizinhos e escolas e quem está ali; programas de TV populares centrados em círculos de amizades entre brancos; iconografias religiosas que mostram Deus, Adão e Eva, e outras figuras importantes como brancos. Enquanto alguém pode rejeitar a ideia de que uma pessoa é inerentemente melhor que outra, não é possível não internalizar a mensagem na superioridade branca, pois é onipresente na cultura dominante. Esses privilégios e a fragilidade branca que advém nos impede de escutar ou de compreender as perspectivas das pessoas de cor e construir pontes nas divisões raciais. O antidoto à fragilidade branca é progressiva e geracional, e inclui engajamento substancial, humildade e educação. Nós podemos começar:
· Estando dispostos a tolerar o desconforto associado com uma honesta estima e discussão sobre nossa superioridade internalizada e privilégio racial.
· Desafiando nossa realidade racial pelo reconhecimento de nós mesmo como seres raciais com perspectivas particulares e limitadas sobre raça.
· Tentando entender as realidades raciais das pessoas de cor através de uma interação autentica ao invés de ver pela mídia ou de relações desiguais.
· Agindo sobre nosso próprio racismo, sobre o racismo de outros brancos e o racismo dentro de nossas instituições – ex: se esclareça e aja.
“Entender” quando se trata de raça e racismo desafia nossas próprias identidades como pessoas brancas de bem. É um processo progressivo e frequentemente doloroso em procurar descobrir as raízes da nossa socialização. Pede-se que nossa identidade seja reconstruída numa nova e desconfortável maneira. Mas eu posso testemunhar que isso também é a jornada mais excitante, poderosa, estimulante intelectualmente e emocionalmente recompensadora. Eu comecei. Isso teve um impacto em todos os aspectos da minha vida – pessoal e profissional.
Eu tenho um entendimento muito mais profundo e mais complexo de como a sociedade funciona. Eu posso desafiar muito melhor o racismo em minha vida diária, e eu desenvolvi amizades multi-raciais queridas e enriquecedoras que eu não tinha antes.
Eu não espero que o racismo desapareça no meu tempo, e eu seu que eu continuarei a ter padrões e perspectivas racistas problemáticas. Porém eu sou confiante que eu prejudico menos as pessoas de cor hoje do que antes. Isso não é um pequeno ponto de crescimento, mas impacta as minhas experiências de vida e das pessoas de cor que interagem comigo. Se você é branco eu invoco que você dê o primeiro passo – largue mão da sua certeza racial e busque a humildade.
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Por Dr. Robin DiAngelo, professor associado de educação crítica multicultural e justiça social da Universidade Estadual de Westfield.
Para acesso ao original:
http://www.huffingtonpost.com/good-men-project/why-its-so-hard-to-talk-to-white-people-about-racism_b_7183710.html